19 de junho de 2007

A vida

A vida está a mexer comigo. Provoca-me, empurra-me, sacode-me, inquieta-me.

O dia antecipada e equilibradamente programado. Trabalho até às seis, dentista um quarto para as sete, gravação da música para a festa do colégio do sobrinho, passagem pelo bar para ultimar pormenores e descansar para não sobrecarregar o corpo ainda convalescente.

Nove da manhã e já ansioso? Tem calma, não deve tardar a responder… Vê lá outra vez…não disse?! Aqui vamos nós outra vez.

- Alô? Então amigo, tudo bem? Más notícias, que foi? Não podes ir? Mas lembras-te que a casa já está alugada? E recordas-te a quantidade de vezes que te perguntei se já tinhas alterado as férias? Esquece…está tudo bem, como sempre…

Outro e-mail. Outro sorriso.

Seis e cinco, a notícia há muito esperada, tempo de começar a acertar contas. Não tens coordenadas? Passamos no Multibanco. Até parece que doeu menos a broca e a conta do dentista. Não comeces já a sorrir, olha que a anestesia foi dupla…

- Que foi Vasco? Falta um cabo? Voltamos a tua casa. E agora Vasco? Não dá porquê? Esquece, já te perdi o raciocínio desde a incompatibilidade das placas. Está bem, continua a falar, eu sei que te alivia os remorsos, mas não te esqueças que me estavas a fazer um favor, portanto não te vou dar na cabeça. Olha, arruma isso, vamos ao bar. Tenho um projecto sim, há mais de um ano que ando com ele na cabeça…

Está visto? Então vamos. Olha quem é ele…
Que é isso? Papel virtual? Espectáculo! Não se vende ainda cá? Realmente, que excelente imagem, mas acho que os oftalmologistas não vão achar grande piada à ideia… E então essa licenciatura? Ah, já é para mestrado. Chicago? Mas isso é fantástico! Antropologia não é? Sim, falemos de música também, e política, e porque não economia?
Não me digas que demos tantas voltas para me poderes dizer isso?

Já viste as horas? Meia noite e quarenta! Amadora e voltar, meia horita e estamos na cama.
Não vou jantar a esta hora, toma lá um iogurte e sossega que quando o telemóvel começar a buzinar vai doer. Que foi? O projecto? Sim, eu sei, falo com o Zé amanhã, agora vê se desligas da corrente. Lembra-te que amanhã há ensaio, e ainda não gravaste aquilo para o sobrinho, e que quinta-feira tocas. Ah, e Sábado também, e caso não te lembres, há dois dias quase não tinhas voz…
Escrever para o blog? Mas estás maluco?! São duas da manhã!! Mas escrever o quê? Que a vida está a mexer contigo?!?!?! Passaste-te de vez…

5 comentários:

Uma vida qualquer disse...

Niño, pero eso no es vivir?!
Besos.

zmsantos disse...

E já te apercebeste, por acaso, que és um espelho à luz do meio dia, reflectindo essa (boa) inquietação e esse (bom) desasossego em todas as direcções?
E que essa radiação, como toda a gente sabe, é a melhor prevenção para a minha futura Alzheimer, para a minha futura arterioscleurose?
Só pelas contas que não terei que pagar aos médicos, te ficarei, eternamente, grato.

Abraço.

Patricia disse...

Ah e porque é que o dia não tem 28 horas???
Eram todas bem aproveitadinhas, não??? Vai com calma primo senão ainda te dá um badagaio e tens tanta coisa para fazer.
A vida são três dias e há que aproveitá-los todos ao máximo..

Bejos

Patricia

SalgasVelho disse...

Para quem há bem pouco tempo escrevia...«...na altura de parar de tentar fazer “n” coisas mais ou menos bem, e tentar aprofundar uma delas, de modo a que consiga fazê-la muito bem! Será desta?»...não está mal, não senhor. Dá um gozo "bestial" fazer muitas coisas, não dá? Cansa, mas dá gozo, mesmo que se façam «“n” coisas mais ou menos bem».
Não percebi muito bem se estás feliz por tudo isso, ou se estás ansioso para ser feliz.
Anima-te. A vida é mesmo assim, cansativa a maior parte das vezes, feliz se nós quisermos e a "fortuna" ajudar.
Já dizia Pedro Paixão (não, não é o árbrito) "Viver Todos os Dias Cansa".
Decerto virás a perceber que, afinal, ser feliz é mesmo isso: Fazer o que nos apetece, sempre, mesmo que mais ou menos bem.
As melhoras te desejo e um grande abraço te envio.

Rogério Charraz disse...

Meu caro provocador,

Escrevi e mantenho, mas não me parece que tenhas lido da mesma forma que o escrevi, ou pelo menos com a mesma intenção. Eu nunca disse que queria deixar de fazer várias coisas ao mesmo tempo, apenas gostava de deixar de viver em dois mundos tão diferentes. Tudo na vida tem lados positivos e negativos, mas o desgaste e a estagnação começam a ser evidentes. E do gostar ao deixar de fazer vai uma grande distância, mas o primeiro passo deste caminho é admitir perante mim próprio que o quero fazer. Posso nunca chegar a conseguir, mas creio que devo tentar, à séria.
A felicidade para mim é mais uma condição que um estado. Eu considero-me uma pessoa feliz, embora passe por fases mais tristes ou mais alegres. Sou feliz porque acordo todos os dias com vontade de viver, e porque continuo a saber apreciar e retirar prazer de coisas muito simples. Pode parecer uma conversa um bocado melosa mas isto sentido tem um peso que eu não consigo transportar para as palavras.
Agora, concordo contigo quando dizes que fazer o que nos apetece nos faz feliz. Mas nem sempre é possível fazê-lo, e muitas vezes o que cansa é o equilíbrio entre o que nos apetece e o que temos que fazer para sobreviver. Mas são fases...

PS: Fico estupefacto que saibas o nome de um árbitro!!!