13 de setembro de 2006

Sem Comentários

Notícia do PortugalDiário:
Scarlett Johansson é o principal nome falado em Hollywood para fazer de Natascha Kampusch num filme que conta a história da menina austríaca raptada durante oito anos.
No cerne de uma disputa acesa entre estúdios de Hollywood está a Natacha e os direitos da história que ascende já aos 50 milhões de libras.
O pesadelo da rapariga de 18 anos faz manchetes por todo o mundo e de acordo com o seu agente, Dietmar Ecker, 30 companhias cinematográficas já ofereceram quantias significativas para comprar os direitos.
Já tendo recebido 800 mil libras por uma entrevista exclusiva e um milhão num acordo para vender os direitos da sua história, Natascha tem o futuro financeiro garantido.
Scarlett, de 21 anos, tem sido falada como a primeira escolha para desempenhar o papel de Natascha, uma vez que as duas são louras e de olhos azuis, e a actriz de «Lost in Translation» vive agora um período em que a sua popularidade está em alta.
Apesar de todo o processo estar ainda em discussão, enquanto argumentistas preparam um guião para um futuro filme, em Hollywood já se fala que uma película sobre a história da austríaca pode vale um Óscar da Academia.
Segundo o Daily Express, fonte próxima da produtora que está perto de garantir os direitos para este filme considera que a história de Natascha será um sucesso no cinema.
A imagem que o meu cérebro utiliza para ilustrar esta notícia é a de um corpo em decomposição, a ser devorado por abutres gordos e esfomeados!

13 comentários:

zmsantos disse...

Quase que apetece dizer: Bendita a hora em que fui raptada...

Rogério Charraz disse...

Não concordo contigo, Zé. Verdade que ela vai receber uma pipa de massa, e que vai ter uma "recompensa" monetária pela tragédia que viveu, mas basta pensar um pouco no que aconteceu para perceber que o dinheiro será o que menos a deve preocupar neste momento. O que me repugna é toda esta pressão, todo este movimento em redor de um "corpo" (não-físico) debilitado e moribundo que precisa de espaço e tempo para sarar feridas e cicatrizar. Mas claro que a indústria e o comércio não se compadecem deste tipo de sentimentos. Onde quer que haja cheiro de dinheiro, tudo o resto é secundário e ultrapassável. Tudo o que este ser humano NÃO precisava neste momento era reviver publicamente o seu calvário. Existe um tempo para tudo, ou devia existir, se a vida humana fosse o centro da nossa vida...

Uma vida qualquer disse...

Só ela sabe como está o seu corpo, a sua alma e a sua bolsa.
Os abutres existem, mas só rondam porque alguém se adivinha presa.

Barras disse...

Está tudo maluco...isto não é normal...
Acho triste a exploração que se está a fazer a este caso...muito triste

zmsantos disse...

A ironia está na situação de que a própria vítima acede a dar entrevistas, a ganhar dinheiro com a situação. Ela declarou que iria tirar o melhor partido daquilo que viveu. É só isso que digo.Não concordo, evidentemente com o aproveitamento deste e doutros casos. Concordo com 'Uma vida qualquer' quando diz que "A vítima se adivinha presa".

Barras disse...

Mas vc's acham que uma miúda que viveu 8 anos em cativeiro tem cabeça para saber lidar com esta situação!?!?
Por muito que lesse, por muito informada que fosse, esta não é uma adolescente normal. Não se pode dizer que alguém se "adivinha presa" quando esse alguém nem tem defesa possível...isto é tudo novo para ela...é um choque brutal, passar de uma situação em que mal podia falar com alguém a não ser o raptor, para outra em que é o centro das atenções...

Uma vida qualquer disse...

Cada cabeça sua sentença, de qualquer forma acho que a subestimam, como felizmente a deve ter subestimado o raptor, permitindo-lhe assim a fuga. É que nunca devemos duvidar do espírito de sobrevivência do ser humano, e ela é exemplo disso.
Acho perfeito que ganhe o dinheiro que possa, até porque tanto quanto ela própria divulga - e não duvido nada - é para criar uma fundação com o seu nome e ajudar as pessoas que como ela tiveram uma experiência de rapto.
A minha questão não é, nem pretendia ser, criticar a atitude dela, simplesmente não acho que neste caso ela seja "um corpo em decomposição" nem os meios de comunicação "abutres gordos e esfomeados", até porque segundo os psicologos que estão a acompanhá-la explicam: "...Natascha tem um conhecimento surpreendente dos meios de comunicação porque estes constituíram, durante o cativeiro, "o cordão umbilical que a ligava ao mundo exterior"."

Barras disse...

Contudo este ataque serrado da comunicação social não deixa de provocar um choque grande na sua cabeça. Não digo isto por achar que ela é fraca, ou que não está informada, etc.; digo isto pela diferença de situações que esta miúda está a viver...passou do estado de ser uma completa desconhecida para tudo e todos os que a rodeavam (o que não implica, como dizes e bem, o contrário) e de repente é o centro das atenções e aparece nas TVs e jornais de todo o mundo...é impossível que isto não faça diferença.
Para além disto, na minha opinião, vai existir em torno desta miúda uma fama tipo "big brother" que vai acabar quando houver outra noticia mais chocante para dissecar nos telejornais. A minha dúvida é: será que quando essa altura chegar ela vai saber lidar com o facto de ter "perdido o interesse" para os meios de comunicação!? Será que ela não vai sofrer e ficar alterada para pior quando perceber que isto é só momentâneo!?
Na minha opinião as palavras mais sensatas que tenho ouvido neste caso são as do psicólogo português que tem comentado esta situação nos jornais nacionais.
Por muita força que esta adolescente tenha (e ninguém põe isso em causa) ela tem com toda a certeza uma ferida muito profunda que a seu tempo vai começar a doer.

Rogério Charraz disse...

A mim o que me choca nisto tudo é a forma como se trata das coisas. Um ser humano foi subjugado por outro e mal acaba de saír do seu cativeiro já se está a escolher a actriz para fazer o papel principal. Como se não fosse muito importante que um louco tenha decidido prender uma mulher durante oito anos, fazendo dela o que bem quisesse, privando-a da sua vida. Acho que já estamos a ficar tão habituados a notícias trágicas que já reagimos com alguma indiferença às coisas. Façam um exercício de imaginação comigo. Lembrem-se em traços largos dos vossos ultimos oito anos. Dos empregos, dos namoros, dos encontros de familia, das festas, dos funerais, das férias, enfim, de tudo o que de relevante aconteceu na vossa vida. Agora imaginem que tudo isso podia não ter acontecido por estarem fechados num quarto à mercê de um outro ser humano. Conseguem imaginar a brutalidade? Acham que alguém que viveu esta experiência lá pode discernir o que é correcto e o que não é? E ainda que possa, é uma questão de princípio. Deve existir um tempo de luto, de respeito pela dôr de um ser humano que, não morreu, mas sofreu um trauma que nenhum de nós desejava passar nem por oito dias, quanto mais por oito anos.

Barras disse...

não podia estar mais de acordo contigo!

zmsantos disse...

Eu também. Quem é responsável pela sua orientação, neste momento, não deveria permitir esta exposição aos 'media'. Ou será que parte daí, precisamente, todo o interesse em fazer dinheiro á custa do sofrimento da Natacha?

O meu primeiro comentário ao post tentava incidir a crítica, com alguma ironia, para quem manipula a rapariga.

Uma vida qualquer disse...

Pois a mim não me choca, será insensibilidade ou falta de ingenuidade, mas há muito que assumi que o ser humano é capaz do melhor e do pior.
Esta história não é mais que o reflexo, que sabemos existe, mas teimamos em ignorar porque é mais cómodo, do mundo em que vivemos. Há milhares de raptores e todos somos cúmplices, não nos chocam os raptores da democracia quando privam milhares da liberdade?

Rogério Charraz disse...

Para mim é muito chocante que exista um sistema que coloque os interesses financeiros acima de tudo. E que nem nos casos mais evidentes e chocantes exista o mínimo pudor e respeito que faça refrear a sede de dinheiro e protagonismo. E é muito chocante que todos nós encaremos isso como "normal" e não nos revoltemos e indignemos, mais que não seja com as palavras!