1 de setembro de 2009

E por falar em saudade...

«Essa palavra saudade. Ninguém a quer mas nós, portugueses, nascemos com ela. Sempre desconfiei de positivismos, mas sobre este assunto sou particularmente feroz: é atavismo nacional e mais nada. Não há ciência que o possa explicar. A parte bonita - e ao mesmo tempo triste - é que espalhámos a saudade como uma pandemia.
E no entanto não a conseguimos traduzir, a não ser no momento em que a sentimos. De nada valem os esforços para lhe arranjar étimos distantes: a teoria mais aceite é que venha do latim solitas, solitatis (para solidão) e que tenha sofrido influência dos vocábulos latinos que significam saúde ou saudar. Pouco importa: é objectivamente intraduzível.
Há cinco anos atrás uma empresa de tradução britânica, a Today Translations, elaborou uma lista das palavras mais difíceis de traduzir. "Saudade" ficou em sétimo lugar. A concorrência, há que dizê-lo, era de peso: em primeiro lugar ficou a expressão congolesa "ilunga", que quer dizer mais ou menos (espero que tenham tempo para o que se segue) "pessoa que está disposta a perdoar maus tratos pela primeira, pela segunda mas nunca pela terceira vez". Justo vencedor.
Outra difícil era a polaca "radioukacz": "alguém que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resitência ao domínio soviético nos países da Cortina de Ferro". Mais perto de nós, em todos os sentidos, está outra palavra intraduzível, a árabe "altaham", que designa um tipo de tristeza profunda. E depois vem a saudade: em sétimo lugar, sim - mas a única cujo significado não é consensual.

Mas não é só a dificuldade de tradução ou descrição que torna difícil falar de saudade sem apelar a artes poéticas ou, no pior dos casos, ao lugar-comum. É o anacronismo* do próprio sentimento que a palavra evoca. Saudade, pensava eu, já não pertence a este tempo de comunicações rápidas, prácticas mas impessoais. (...) A saudade, neste espírito do tempo em que imperal emails, redes sociais e sms escritos em estranho dialecto, corre o risco de extinção. As gerações mais novas não têm tempo para sentir saudades, quando a distância pode ser vencida através de um computador e uma web cam. Como é hábito, não tenho razão.
A saudade existe, e está viva nos novos portugueses. Encontra-se nos lugares mais improváveis, mas é a mesma. Talvez apareça noutra forma, em versão 2.0, mas está lá e é fácil prová-lo. Tome-se o caso da mais popular rede social da Web, o Facebook. Mais de 124 milhões de almas comunicam entre si todos os dias através desta ferramenta. É um óptimo lugar para reencontrar amizades que se julgavam perdidas, ou despertar paixões que se julgavam dominadas. (...)
Pois é aqui que a saudade também vive. Os utilizadores não portugueses do Facebook têm comentários típicos às memórias que lhe são apresentadas: "Lembro-me bem desse dia: grande bebedeira", ou outras constatações objectivas são o limite a que se atrevem. Os portugueses não: vêem um lugar, uma pessoa, uma canção e a resposta é imediata: "Que saudades!"
(...)
Ter saudade não é privilégio nem exclusivo nacional. Nós apenas nascemos assim.
(...) Bernardim Ribeiro escreve o mesmo, de forma ainda mais bela, no Menina e Moça: "[...] a tanta tristeza cheguei, que mais me pesava do bem que tive que do mal que tinha."»

Extracto da crónica "Essa palavra saudade", de Nuno Miguel Guedes, publicada na revista Nós Saudosistas, que acompanhava o jornal i.

Como português de gema que me assumo, dedico este texto a todos aqueles de quem sinto saudades neste momento. Aos que já partiram deste mundo. Aos que vivem fisicamente longe (de Vilar Formoso, ao Alentejo e arredores). Aos que moram perto mas que por diversas razões têm estado longe. Aos que estão de férias. Aos que estão em recuperação ou em refúgio. A todos os que me povoam o meu pensamento amiúde... que saudades!


Nota 1: Fiquei a pensar se serei ou não "ilunga"...

Nota 2: Para os que, como eu, não sabiam o que é um anacronismo, aqui vai:

*anacronismo
s. m.
1. Erro cronológico.
2. Coisa a que se atribui uma época em que ela não tinha razão de ser.

8 comentários:

carmen disse...

olá,
E eu que sou uma brasileira muito distante daí, mas tão perto e também com tantas saudades.
A "saudade" é com certeza portuguesa e a herdamos também.
Bjs
belíssimo blog
peço licença para incluir-te no meu blog

zmsantos disse...

Grande "ilunga" me saíste...

Abraço.

José Manuel Gomes disse...

Caro Rogério Charraz.
Adorei este texto, se me permites, acrescento uma bela tentativa de José Rodrigues Moguéis em definir o saudosismo português: "Cá sofre-se com a chatice e lá é o sofrimento que chateia. Cá só se pensa em partir e jura-se nunca mais voltar. Lá só se pensa em voltar e jura-se nunca mais partir. Quando saímos de Portugal saímos disparados mas, uma vez atingido o alvo, parecemos balas a querer voltar ao cano da pistola…"

Mukanda disse...

Estava à espera de um post sobre o nosso Glorioso :)))
Um beijo e um abraço Charrazito, com Saudade! :D
Um bom dia para todos

Leticia Gabian disse...

Com toda propriedade, assumo que este post cai-me como uma luva.
Como disse a minha amiga Carmen, herdamos este "banzo" e a saudade é lugar comum nos corações dos brasileiros.
Tem dias que o meu peito parece que vai explodir. Tem dias que parece que o mar invade os meus olhos. Tem dias nos quais cheiros, sons e imagens me levam a atravessar o imenso oceano. Tem dias que, se pudesse, passava a mão em meu Zé e tomávamos um avião rumo à terra do dendê.
Deve ser muito triste não sentir saudade. Feliz de quem tem do que lembrar com o coração.

Beijão

Maria disse...

Passeei-me por aqui por volta das 4 da manhã. Depois do abraço. Confesso que fiquei sem jeito para te comentar. Como agora, onde flores até do outro lado de lá já apareceram...
Hoje canto, apenas.

Beijo grande

Carol disse...

Charraz,

Este texto não será seguramente um ANACRONISMO porque a temática irá perdurar por muitos e longos anos ... somos portugueses, está nos genes !!!

PS: ....Já tenho SAUDADES de estar com vocês, de vos ouvir ... :)

Beijocas grandes

sapito disse...

Saudades...