8 de agosto de 2008

A vida




Mais do que um céptico ou que um optimista, considero-me um relativista. Sempre tive o hábito de relativizar quer momentos de grande tristeza, quer momentos de enorme alegria.

Identifico-me muito com a letra do Carlos Tê, que o Rui Veloso musicou e que serve de banda sonora a este texto:

"Pára de chorar e dizer que nunca mais vais ser feliz,
Não há ninguém a conspirar para fazer destinos negros de raíz.

(...)

Pára de sorrir e exibir a tua felicidade
Só por leviandade se pode sorrir assim, num estado de graça
Que até ofende quem passa
Como se não haja queda no universo, e a vida
Seja moeda sem reverso."

Nos trinta anos que já vivi, passei por momentos complicados, fases em que o mundo parecia não querer nada comigo. Tive períodos em que me senti sozinho, deslocado, em que a sorte foi madrasta e os infortúnios se sucederam. No entanto, senti sempre que a força da vida que em mim habita me traria, mais cedo ou mais tarde, algo de bom e de reconfortante. Passei sempre pelas tempestades a pensar na bonança.

Tive também fases de grande felicidade, momentos em que todos os astros se uniram para me agraciar. Tive alturas em que parecia que tudo o que eu mexia se tranformava em ouro. Mas nunca me rendi ao estado de euforia. Vivi todas as vitórias com a consciência que o dia da derrota chegaria.

Sou daqueles que pensa que se não passássemos por dificuldades, se não sentíssemos na pele a tristeza e a amargura da vida, nunca conseguiríamos dar valor aos momentos de prazer e felicidade.

Nós não controlamos a vida. Tomamos decisões, escolhemos caminhos, fazemos opções, mas há uma boa parte da nossa vida que não está ao nosso alcance, é maior que nós. Saber lidar com as vicissitudes é um grande desafio que nos é colocado dia após dia, e para o qual nem sempre estamos preparados.

Ultimamente a minha vida tem sido agitada por grandes ventos, uns contra, outros a favor, alguns bem contraditórios, todos eles muito inesperados.

Fui novamente sacudido pelo vento da paixão, algo que já começava a duvidar que voltasse a acontecer, depois de alguns anos tortuosos, neste capítulo. Não esperava que fosse assim galopante, fulminante, tão efervescente.

Também não esperava voltar a sentir a tristeza cravada no rosto de quem tanto me diz respeito. Nunca pensei voltar a reencontrar o espectro da culpa, da mágoa, da incompreensão. Não pensei que feridas antigas sangrassem tanto.

Tem sido igualmente o tempo de ver pessoas que amo subjugadas à doença. Primeiro a minha sogra, agora a minha mãe. Tempos difíceis se avizinham, duras batalhas que vão requerer toda a minha força e convicção. Quando me preparava para umas muito merecidas e desejadas férias, eis que a vida me esbofeteia em cheio na cara, atirando-me para o sempre desesperante mundo dos hospitais, confrontando-me com velhos fantasmas, reabrindo feridas que julgava cicatrizadas.

Mas depois a vida tem destas coisas, um telefonema, a voz trémula do outro lado, o choro audível do lado de cá, a voz embargada: "Amigo, e nós não estamos aí...!". Estão sim, como têm estado sempre, na alegria, no sucesso, na brincadeira, nos problemas, nas provações, na partilha do dia-a-dia. E os outros telefonemas, as mensagens, a preocupação, a dor partilhada. Há muito tempo que não me sentia assim, tão aconchegado, tão acompanhado, tão identificado. Bem hajam todos!

É preciso saber aceitar a derrota e ser digno na vitória. Triste mesmo é ficar fora-de-jogo...

12 comentários:

Carol disse...

Charraz, meu querido

A vida é mesmo feita de altos e baixos e cabe a nós saber levá-la com a maior sabedoria possível, sabendo identificar os momentos menos bons e encontrando forças para os ultrapassar.

Mesmo sentindo-me muitas vezes a amiga mais ausente deste núcleo de amigos, creio que sabes que sempre que precisares, que me podes chamar ... 24/7 ... por que só concebdo a amizade na disponibilidade total que tenho para os meus amigos.

"PRECISO DE ALGUÉM
Que me olhe nos olhos quando falo.
Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência.
Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odia-lo por isso.
Neste mundo de cépticos, preciso de alguém que acredite, nesta coisa misteriosa, desacreditada, quase impossivel de encontrar: A Amizade.
Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa.
Preciso de um Amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida.
Mesmo que isto seja pouco para as suas necessidades.
Preciso de um Amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo:
"Nós ainda vamos rir muito disso tudo"
Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher o meu Amigo.
E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela..."

Relembro-te ... estou mesmo aqui ;)

Uma beijoca carinhosa

Andreia disse...

Quando entrámos em 2008, a mami "alertou-nos", que não iria ser um ano fácil.
Estavamos a entrar num ano Bissexto.
Na altura respondi-lhe:
"Mamã, por favor, o que é que uma coisa tem haver com a outra?!"
Ao qual ela respondeu:
"Têm sido todos assim..."
Talvez uma coisa, nada tenha haver com a outra?!
Acredito, que sejam puras e tristes coincidências!
De facto, não está a ser um ano "fácil".
Têm sido um ano de muitas emoções e de muitos sentimentos.
Mas, infelizmente a vida é assim, feita de altos e baixos, de alegrias, de tristezas,....,umas vezes perdemos, outras ganhamos.
Mas, nunca podemos desistir.
Nunca podemos baixar os braços.
Nunca podemos deixar de acreditar.
Cada vez mais acredito, que cinquenta por cento de todo o "sucesso" está no nosso positivismo.
Na forma como encaramos a vida.
Temos que ir buscar forças, onde elas não existem,
porque Alguém precisa de nós!
Não nos podemos dar ao "luxo" de irmos a baixo.
Não agora!
A minha mãe está a evoluir no bom sentido.
A minha sogra vai ficar boa.
Tu foste, novamente, sacudido pelo vento da paixão.
A vida, também, tem coisas boas! :)
Temos de pensar assim Charrazito.
Fico muito feliz por ti.
Do fundo do meu coração.
Tu conheces-me!
Tu e a minha sogra fazem parte da minha vida, da minha familia.
Amo-vos como tal.
Ela vai ficar boa, tenho a certeza disso.
Para ser familia, não temos de ter o mesmo sangue,
Basta AMARMOS como tal.
Ao que hoje chamo Tristeza,
Amanhã chamo Amadurecimento.
Nunca podemos deixar de acreditar nisto.
Um beijinho muito grande.
Sabes onde estou.
Estarei sempre cá.
Andreia Vilarinho Flórido

Anónimo disse...

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

Acredito profundamente que estas pequenas coisas só nos ajudam a perceber o que fazemos realmente nesta vida e esta fase será apenas mais uma batalha que tu vencerás, porque tens a força invencível dos Deuses e o amor profundo dos muitos que te adoram!

Beijos da tua sempre "Anónima"

Leticia Gabian disse...

Querido Rogério,

As tuas palavras bem podiam ser as minhas, as de Maria, as do meu Zé... Todos passamos por momentos SIM e por outros NÃO. A vida é como o mar... tem ritmo, tem calmaria e tem vendaval. E como tem surpresas! É esta a grande aventura diária a que somos impostos. E podem achar que sou louca, mas agradeço poder estar de pé para vivenciar o mel e o fel que me são oferecidos.
Força, amigo, muita força pra viver
todos os teus momentos!
Desejo muita saúde e paz à tua sogra e à tua mamã.
Desejo-te muita sabedoria e estabilidade para manter-se sempre firme diante do balanço do vento da paixão. Entregue-se a ela sem medo de ser feliz. Este é um dos teus maiores momentos SIM.
Quanto ao rosto da mágoa, da tristeza, da culpa.... Esta é uma caminhada que só pode ser feita pelo outro. A tua parte, eu sei que já faz imprimindo respeito e carinho.
Segue o teu caminho...Tens o amor da família, tens amigos do peito, tens uma paixão, tens a música e, principalmente, tens a lucidez necessária para não se deixar sucumbir quando das fases tortuosas da vida.
Mesmo de longe, conta comigo.

Um abraço bem apertado

Princesa Isabel disse...

Cá estou perto para o que der e vier e para o que precisares.
Que tudo corra pelo melhor.
Abraço e um grande beijo!
Isabel

A CONCORRÊNCIA disse...

Que palavras tão sábias Letícia, não consigo acrescentar nada ao que disse. Só que ao contrário da Letícia eu estou bem perto, portanto peço-te, conta comigo.

MisteriosaLua disse...

Um beijinho, Rogério!...

Maria disse...

Querido Rogério

Depois de te ler fiquei com um nó, dos muitos que se me põem na garganta em situações semelhantes.
Depois fui lendo os comentários, e já que a Letícia fala de mim e é verdade o que ela diz, das curvas apertadas das nossas vidas e também das alegrias que ainda temos, não digo mais nada...
Deixo um enorme abraço, muito apertado, o que não te dei hoje porque não te fui ouvir...
... e um beijo, com carinho.
Muita força, Rogério!

Kate Rose disse...

beijos da tua sempre anonima! bahhhhhhhh
que palhaçada! hihi

Rogério Charraz disse...

Meus queridos, não vos respondo para não correr o risco de banalizar as vossas palavras. Só queria que soubessem que bebi cada uma das vossas palavras...

Kate Rose disse...

Peço desculpa pelo comentário

Rogério Charraz disse...

Kate Rose, desculpas aceites, assunto encerrado. Espero que o tempo jogue a nosso favor...