8 de maio de 2008

Pela voz do poeta

Ser que nunca fui

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

Setembro 1982

Mia Couto em “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

7 comentários:

A CONCORRÊNCIA disse...

Charraz, interiorizaste a luminosidade da tristeza ou quê ?
Vamos lá a ficar apenas luminoso, que tristezas não pagam dívidas.

Sabes aquela:
Um amigo para o outro
"Porque é que dizes que o teu cão é muito inteligente ?"
"Porque quando lhe pergunto vens ou não vens ? Ele ou vem ou não vem !"

Não resultou ? Tenta ir até ao autódromo dar uma voltinha de carro.

LOL!

Rogério Charraz disse...

Querida Concorrência, das duas uma, ou leste o poema na diagonal, ou temos interpretações muito diferentes das coisas. Apesar de falar em lágrimas, este poema é tudo menos triste. É luminoso, esplendoroso, "fabulástico"!

"e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente"

Desconhecia a veia poética do Mia Couto, mas fiquei maravilhado!

A CONCORRÊNCIA disse...

Amigo Charraz, sem querer comparar Mia Couto com Manuel Alegre, deixo-te aqui um poema do último, que não sendo fabulástico, é sem dúvida um poema:

Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
sabia a contenção e era explosão
havia nele o touro a havia a corsa
Não era só instinto era ciência
magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
do puro jogo e sua matemática
Buscava o golo mais que golo : só palavra
Abstraccção. Ponto no espaço. Teorema.
Despido do supérfulo rematava
e então não era golo: era poema

Para que não me tentes imitar, e comeces a ler na diagonal, deixo para adivinhares como se chama o poema.

Rogério Charraz disse...

Se não estou em erro é dedicado ao Luis Figo...

A CONCORRÊNCIA disse...

Amigo, estás errado !!!!!

A Nossa Casa disse...

Hello :)
É muito bom descobrir a magia de Mia Couto, mesmo do lado poético que é pouco divulgado. E para aguçar ainda mais a tua curiosidade aqui deixo umas linhas "Coutistas"!

"Tinha tanto medo de solidão
que nem espantava as moscas"

"quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço"

...e que tal um poema de Mia Couto em formato sonoro!?

Bejitos
Rita

zmsantos disse...

E como diz a Rita: E que tal, e que tal. Sr. Charraz?...