6 de março de 2008

Dia de festa!

Está-se a aproximar o dia que assinala o meu trigésimo aniversário. Quando era pequeno fazia grandes festas, convidava os amigos da rua, mais os amigos da escola, mais a família, era casa cheia. Depois fui crescendo, ficando mais reservado, e já só convidava a família e alguns amigos mais próximos, sendo que nos últimos anos apenas me rodeava do núcleo mais chegado. E confesso que as últimas comemorações foram mais a pensar nos outros do que propriamente na minha vontade.

Com as recentes modificações na minha vida pessoal, achei que não fazia sentido comemorar algo que a mim pouco dizia, pelo que no ano passado pura e simplesmente passei o dia como se de outro qualquer se tratasse.

Percebo que seja difícil de entender para muita gente, afinal, vivemos cada vez mais rodeados de hábitos comuns, que por vezes se tornam quase imposições. E a mim, que cada vez me sinto mais longe do senso comum, quanto mais obrigatório se torna um acontecimento menos vontade sinto de o viver, sejam aniversários, passagens de ano, dias da mãe, do pai, de namorados ou feriados religiosos.

Quando penso nas razões que me levam a não ter prazer na celebração do meu aniversário, vêm-me várias à cabeça, mas nenhuma relacionada com o medo do envelhecimento ou do foro religioso. Desde logo a minha timidez, muito disfarçada à conta do humor, e a pouca apetência para o culto da personalidade. Bem sei que este último argumento pode parecer estranho vindo de um tipo que há um ano se expõe semanalmente na frente do palco, liderando um projecto em nome próprio. Sem entrar em grandes pormenores para não me desviar do tema, adianto que foram as circunstâncias que me levaram a estas opções, e não a sede de protagonismo. Creio mesmo que o facto de ser músico, e de, através do meu trabalho, ser regularmente centro de atenções, leva a que sinta menos necessidade de fazer deste dia um acontecimento.

Mas a principal razão que me faz fugir do meu aniversário, tem a ver com a hipocrisia em que assentam muitas relações humanas, e que estes dias tornam mais visível que nunca. É um dia em que recebo muitas chamadas e mensagens, muitas das quais de gente que me é (ou foi) próxima, que tem comigo laços de sangue ou de amizade, mas que são ausentes nos restantes trezentos e sessenta e um dias. Gente que, mesmo quando passei períodos conturbados da minha vida pessoal, não me ligou, não me procurou, não esteve do meu lado, mas neste dia faz questão de me dar os parabéns. Como se isso é que fosse realmente importante. Como se eu fosse uma folha de calendário ou uma efeméride.

Mas não sou. Sou de carne e osso, como todos, mas com um feitio mais difícil. Cada vez mais intransigente e exigente com aqueles que me rodeiam e que fazem parte da minha vida, que por este motivo vão sendo cada vez menos. Cada vez menos disposto a entrar neste jogo a que chamamos de sociedade, em que desde que se cumpram determinados requisitos tudo está na paz do Senhor. Cada vez menos interessado em aparências e em relações que se baseiam no estatuto e no passado.

Estou prestes a fazer anos e não vou fazer nenhuma festa. Não por mágoa, por revolta ou por desilusão. Apenas por não encontrar nesse dia nenhuma razão que o faça diferente dos outros, e para mim todos são bons para comemorar, porque eu adoro viver. Todos os dias acordo com vontade de me levantar da cama (mais tarde, é certo!) e todos os dias encontro motivação e alento para continuar. E cada vez mais dou valor aos pequenos pormenores, como por exemplo, estar aqui a escrever e saber que vocês vão ler, que alguns vão reagir de imediato, outros mais tarde, e outros nunca a isso se atreverão. Saber que me vou surpreender com algumas dessas reacções e que me emocionarei com outras.

E não preciso de apagar velas para formular o desejo de continuar a celebrar todos os dias como se de um aniversário se tratasse, na companhia de todos os que têm estado presentes, mesmo que nem sempre fisicamente.

Que cantem as nossas almas!

16 comentários:

zmsantos disse...

No palco, o protagonismo pertençe a um projecto que só tem o teu nome, na ausência de outro que fosse fiel à essência daquilo que vocês, os três, representam.
Há muito que te compreendo nesta matéria, e noutras, mas a comparação que fazes do teu aniversário com uma mera "lembrança" ou uma data na folha de um calendário me pareçe exagerada, amigo. Se há alguem a quem não se pode ficar indiferente, quer por boas, (ou más)razões, esse alguem és tu.
Quando te dão os parabéns, depois de um ano inteiro de ausência é porque te sabem de carne e osso.
É porque sabem que não pactuas com a hipocrisía e o carneirismo destes nossos dias.
Eu, por mim, dou-te os parabéns por seres como és, e por te ter como amigo.

Abraço

VASCO RIBEIRO disse...

E mai nada! Que se lixem os aniversários. De mim não levas os parabéns.nunca me lembro.Eh Eh.
A malta quer é comer e bubuer!!!
Preguinho!!!
Abraço

Anónimo disse...

Parabéns... por teres o previlégio de teres AMIGOS dos verdadeiros, daqueles que estão a nosso lado quando precisamos deles e não quando eles pensam que podem obter benefícios (leia-se lucros)por serem nossos amigos. Eu, dou por mim muitas vezes a pensar quais serão das pessoas que conheço aquelas com quem poderei verdadeiramente contar.

Parabéns ... por fazeres o que gostas, e pelo teu talento inato para que com o teu trabalho consigas ser feliz e trazeres felicidade aos que te vêm (ouvem) trabalhar.

Parabéns ... por fazeres 30 anos e teres ainda um longo caminho a percorrer que de certeza será ainda mais bonito que o caminho que trilhaste até aqui.

E por favor tenta tirar bem do fundo do teu peito aquela parte de criança que te fazia gostar de comemorar o teu dia de aniversário. É sempre bom conservarmos uma parte da criança que fomos dentro de nós. Ajuda-nos a ser mais felizes ...

Marta Schiappa Pietra disse...

Já dizia o Principezinho que as pessoas adultas são muito complicadas... o que escreves representa uma das coisas dificeis (bem como outras tantas)de crescer... mas também nos proporcionam a capacidade de escolher... e escolher é também renunciar...
Porque não renunciar a hipocrisia e escolheres as pessoas especiais para ti no teu aniversário? Terás mesmo que ficar sem essa celebração? Fazer anos não será muito mais do que uma festa?
Depois eu é que tenho mau feitio!...

Zé dos Anzóis disse...

Por mim, digo-te que não gosto de dar os parabéns, sobretudo a gajos com 30 anos, que porra de idade é essa de 30 anos. Ainda se fossem 40, agora 30, não estou para aí virado, e depois este ano já dei os parabéns ao Zmsantos, pelo menos esse fez uns anos que um gajo até dá gosto de dar os parabéns, pelo menos tem uma data deles a mais do que eu, também sabe mais, e já viveu mais, mas que se lixe também é mais VELHO do que a GENTE.
Digo-te ainda que hoje e 10.954 dias depois de nasceres só me ocorre dizer-te uma coisa, parabéns por seres quem és e que sou muito grato por te ter entre os meus "Amigos".
P.S. Rica prenda era o Benfica ganhar por 3 a Zero aos Espanhois.

Rogério Charraz disse...

Zezito, esqueçamos os que ligam mais ao calendário que às pessoas. À nossa, amigo!

Vasquito, és dos que nunca se lembra do meu aniversário mas nunca se esquece de mim. E as provas são mais que muitas! O preguinho está a sair...

Caro(a) Anónimo, uma das razões por ser como sou tem precisamente a ver com o facto de me recusar a deixar de ser criança. Posso não comemorar o meu aniversário, mas continuo a brincar todos os dias!

Martita, o mau feitio é completamente assumido! Mas eu não comemoro por um conjunto de razões, a hipocrisia é só uma delas. Tal como dizes, é uma escolha.

Dionísio, tens toda a razão, mas olha q tomara nós chegar à idade do decano com aquela energia, aquele brilho interior e aquele aspecto físico. Ah pois, que aquele cabelo branco e comprido ainda provoca muito suspiro (aposto que vem aí a piadinha....). Quanto à prenda, já não acredito em milagres! Já me bastava 1-0 para continuar a gozar com os tripeiros!!

Uma vida qualquer disse...

Estava eu aqui tão sossegada entre malas e check-in, tinhas que me provocar: gozar com os Tripeiros e ganhar aos Espanhóis! (ganhas ao Camacho e eu é que gozo!).
Os parabéns dei-te há 365 dias, que este ano foi bissexto; os dias de comemoração, são aqueles em que nos conseguimos rodear de quem amamos e nos ama, e desses desconfio que tens tido alguns, e o pequeno loirito tem ar de reguila, achas mesmo que isso se transforma em algo de mau!?
Besos guapo

Anónimo disse...

Fiquei sem perceber muito bem se é hoje que fazes anos, mas como para ti não são as datas que contam, deixo os parabéns pelo bom trabalho!!
Besos da Lua

Rogério Charraz disse...

Niña, mucha mierda! Em português, vai-te a eles!

Misteriosa Lua, não foi ontem, mas como disse a oradora anterior, é sempre que me rodeio dos que amo e me amam. E se há coisa que não faço é queixar-me da vida!

Princesa Isabel disse...

Querido amigo!
Também não sou grande fã de comemorações da data de aniversário, no entanto encontro aqui um pequeno tom de mágoa neste discurso e "franchement" meu querido, aos trintas, com um olhão claro desses e um talento que ainda pode crescer e muitooooo ... convenhamos...
Pânico de envelhecer vamos ter sempre, aos trinta, aos quarenta, aos cinquentaaaaa...(o resto ainda não sei mas deduzo que vai piorar bastante) mas, a vida é bela como dizes e o melhor é não pensar muito no assunto...
E faça favor de beber um copo nesse dia com a madrecita e o papito senão vai-lhes dar um treco de certezinha absoluta. Mesmo sem os conhecer aposto a vida que desse lado a manisfestação de alegria nessa data é "verdadeiramente VERDADEIRA" (diz uma madrecita assumidíssima)!
Um grande beijo,
Isabel (também Princesa, para alguns...)

Jörg disse...

Então, assim sendo, só me resta agradecer à tua mãe por te ter trazido a este mundo, e dar os parabéns aos teus pais por terem criado um filho assim. A ti dou-te uma prenda desfarsada (não embrulhada) e de socapa (antes da data – coisa que nunca se faz) e ainda um abraço, tal como sempre quando te encontro, pois este gesto de amizade vale sempre, neste e todos os dias.
E aqui vai mais um – um forte abraço,

Jörg

Anónimo disse...

Parabéns!!
Não pelo teu aniversário, mas pela pessoa que és! Quanto mais te conheço, mais privilegiado me sinto por poder partilhar as preocupações, responsabilidades e desabafos contigo.
Como não acredito que colegas de trabalho possam ser amigos, sem que isso afecte a relação profissional, não o somos... Mas posso dizer que tenho muita pena!
Parabéns!
José

Anónimo disse...

Charraz,

Mesmo sendo um conhecimento e amizade recente, já sabia da tua vontade de não celebrar esta data .... neste dia de aniversário que partilhamos os 2, também eu não sou dada a comemorações especiais e a manifestações muito efusivas sobre a minha pessoa ... :)

Também eu não vou fazer celebrações por aí além .... mas envio-te uma beijoca especial por este dia ;)

Até à vossa próxima actuação !!

Carol

Anónimo disse...

Não há felicidade sem tristeza, não há sol sem chuva. Claro que te gostamos todos os dias, mas ter um dia em especial para todos o dizermos ao mesmo tempo, é simplesmente bom. Aproveita essas mensagens de amor e esqueçe os falsos.

Beijinhos
Diana e Ricardo

O Grupo da Corda disse...

Rogério, ninguém faz 30 anos!!!
Pois é, o tempo passa por nós enquanto nós passamos pela vida.
Reencontar um amigo ao fim de vinte e tal anos é obra e esta foi mesmo uma obra de arte.
As fotos, ah as fotos que saudade, tu com o fato de treino azul e a famosa franjinha... o Paulo, o Zé.
Tinhas direito a pepsi cola, talvez comprada no Bernardino, não?
Parabéns, não só pelos 30, mas por ser quem és. Continua!!!
Aquele abraço
Paulo Miranda

O Grupo da Corda tb agradece por fazeres parte da vida deste grupo.

Anónimo disse...

Comentário à festa.
Cunhado achei fantástica a forma intensa e sincera com que exprimiste os teus sentimentos em relação ao que sentes, à forma de encarar e te posicionares na vida. De facto, as relações humanas muitas vezes assentam em hipocrisia. Mas também assentam em muitos outros valores, muito mais altruístas, de forte empenho das partes envolvidas que precisam de ser cultivados, alimentados,e vontade para nos empenharmos naquilo que nos faz mover e seguir em frente na vida e envolvermo-nos ou deixar que alguém faça parte da nossa vida, dos encantos e desencantos, dos momentos difíceis. Eu costumo dizer que a amizade é como uma planta, se a regarmos e a tratarmos bem, dura para sempre. Mas a amizade precisa de ser cultivada, precisa de ser regada, precisa que alguém se disponha a isso, que empreenda que fomente e cultive essa amizade, não que se afaste por nenhuma razão justificável, aparente ou compreensível para quem está de fora e não compreende determinadas atitudes porque provavelmente ninguém lhe disse aonde agiu mal, o que devia ter feito e não fez, o que devia ter prestado atenção e não prestou, porque não deixou entrar no casulo e isolou-se dos que dele gostam, porque simplesmente, fechou-se em si próprio. Quando se precisa de ajuda, procura-se pela ajuda, pelo ombro do amigo, pela compreensão, nem que seja para estar calado.... mas estar lá já é um grande significado. Mas é impossível estar-se com alguém, que nunca deu abertura para que a planta fosse regada e que crescesse e que fosse alimentada daquilo que precisa, do sol, da chuva, do aconchego, do amor, da compreensão, da amizade. Sabes o que acontece quando a planta não é devidamente cuidada? Murcha, fica ao desalento, à espera que alguém se lembre dela, talvez algum dia, se porventura ela disser, eu estou aqui, tratem de mim... eu deixo...