17 de dezembro de 2007

14 de Dezembro de 2007

Gostava de ter escrito este texto na 6ª feira, quando cheguei a casa. Mas o cansaço e a descompressão eram de tal ordem que me resignei a deitar o corpo na cama e a dar algumas horas de tréguas aos sentidos.

Não conheço detalhadamente os pormenores, nunca fui de fazer muitas perguntas. Quando me foi endereçado o convite, foi-me explicado que se tratava da comemoração dos 10 000 dias sobre uma delicada operação ao coração, que envolveu risco de vida. Quem passou por esta experiência achou que o facto de ter continuado vivo merecia ser celebrado de volta dos amigos e familiares, e a mim pareceu-me muito bem. Se há coisa que eu gosto de celebrar é a vida!

Entre o dia em que me foi feito o convite e a realização do evento, fomo-nos conhecendo melhor, e fiquei a saber a razão porque pai e filha apareciam sempre acompanhados apenas um pelo outro, amputados de um terceiro elemento que, não sendo obrigatório, seria natural.

Não sei precisar há quanto tempo aconteceu, mas não foi há muito que a Ana, mulher do Dionísio e mãe da Patrícia, entrou num hospital para sarar uma perna partida, e creio que uma bactéria lhe provocou uma embolia que lhe marcou irreversívelmente (espero estar enganado ao escrever esta palavra!) o cérebro. Não sei se estarei a repercutir os factos com o máximo rigor, há pormenores que o meu cérebro insiste em não fixar, como se não os quisesse aceitar!

O facto mais relevante é que a Ana nunca mais foi a mesma, e a vida do Dionísio e da Patricia também não. Apoiados um no outro, nos amigos, na família e em pequenos prazeres que vão aliviando a dor, prosseguem as suas vidas com uma dignidade e uma força que impressiona e cativa os que, como eu, vão conhecendo pelo caminho.

Na passada sexta-feira, aquilo que foi projectado como uma celebração da vida, acabou por ser um grito de saudade, um sorriso de lembrança, uma lágrima colectiva por um destino tão injusto como incompreensível. A nossa voz foi guiada pelo Dionísio, as nossas mãos conduzidas pela Patrícia, as nossas emoções tocadas por esta família que mesmo passando pela maior das provações, mantém a coragem dos bravos, a dignidade dos grandes e a esperança dos crentes.

Senti-me um privilegiado por ter feito parte daquele grupo. Em alguns momentos tive que conter as emoções, para poder cumprir o papel que me estava destinado. Saí daquela sala com a certeza que, quando quer, o ser humano consegue transcender-se. Uma noite que guardarei para sempre na memória, uma família que guardarei para sempre no meu coração.

Este é o blog da Ana.

6 comentários:

Anónimo disse...

Não sei se, com excepção da sabedoria, os deuses imortais ofereceram ao homem alguma coisa melhor que a amizade.(Cícero)
Não consegui encontrar nada melhor para defenir o que senti ao ler este texto.
Dionísio Simões

zmsantos disse...

Na verdade, também para mim foi uma noite especial. De tal forma que continuo sem conseguir pôr em palavras aquilo que senti e sinto.
Tentarei dizer com o coração ao Dionísio, à Patrícia e a Ana que ganharam mais uma vontade para vencer esta dura luta.

Anónimo disse...

Ao ler o texto e os comentários, fiquei sensibilizado e feliz, por de alguma maneira, o grupo a que pertenço,ter colaborado nessa comemoração de emoções.
Bem hajam e um Feliz Natal.

Alentejano

Rogério Charraz disse...

De alguma maneira não, estiveram brilhantemente representados por um dos elementos e tiveram a generosidade e a amizade de emprestar as colunas com que amplificámos o som e alguns dos microfones. E para que fique registado, o grupo chama-se Norte e Sul, a quem eu deixo o meu sincero agradecimento!

Princesa disse...

Vejo o Dionísio e a Patrícia muitas vezes na Taverna dos Tovadores e, para mim, essa é uma grande prova de que a musica é um dos maiores confortos da alma e elo fortalecedor das amizades profundas ou mesmo de circunstância.

Anónimo disse...

As emoções que todos vivemos nessa noite vai seguramente ficar nos nossos corações durante muito e muito tempo.
Como Francis Bacon já disse ...
"A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas."
É uma das verdadeiras forças motoras da amizade.
Uma beijoca muito carinhosa,
Carol