29 de maio de 2007

Espelhos

«Dizer que o balanço da vida não o entusiasma é um eufemismo – deprime-o, pura e simplesmente. Significativo é que tenha admitido muito cedo o fosso entre o que era e sonhava ser. Muito cedo, demasiado cedo, tinha ainda todo o tempo do mundo para se pôr em marcha, escolher novos caminhos, atirar-se com maior determinação aos antigos. Falou-lhe a crença.
(…) Refiro-me à crença em si mesmo e na justeza das escolhas feitas. Aqui reside o problema – não as fez. A vida aconteceu-lhe, nada mais, já dei exemplos. Querem outros?: doutorou-se para ficar no ensino, nunca tencionou subir os degraus da carreira académica; trabalha nos media e recusou todas as ofertas para se lhe dedicar de alma e coração; confessa-se mero escrevinhador, mas nunca organizou a vida de modo a tentar escrever a sério; e…; e… Esperou pelo “trabalho da sua vida”, em vez de construir um amor sólido por uma das suas ocupações. O que lhe sobra em persistência horizontal, falta-lhe em teimosia vertical – não aprofunda nada. O resultado é uma estranha mistura de workaholic revoltado e diletante azedo.»

O indivíduo retratado é o Prof. Júlio Machado Vaz. Está na página nº 20 do livro “O tempo dos espelhos”, escrito pelo próprio, que o justifica assim: «Mas escrever é (preciso). Quero algumas coisas em letra de forma. Exorcismo ou testamento, pouco importa.»

Comprei-o ontem num hipermercado, por impulso, entre iogurtes e fruta. A cada página que leio tenho que parar para pensar na minha vida. E quando li este trecho tive mesmo que sair da praia e vir escrever. É que ando há dias a tentar convencer-me que está na altura de parar de tentar fazer “n” coisas mais ou menos bem, e tentar aprofundar uma delas, de modo a que consiga fazê-la muito bem! Será desta?

4 comentários:

SalgasVelho disse...

Sou capaz de concordar contigo.
É, decerto, melhor fazer alguma coisa bem, do que muitas mais ou menos. Como também será melhor fazer uma coisa mais ou menos, do que muitas, muito mal.
Resumindo: se fazemos algo bem, ou até, muito bem, onde está a dúvida?
A opção transforma-se em convicção.
Se, por outro lado, temos a capacidade de não fazer nada muito bem, mas muito, muito mais ou menos...
Não sei se me estás a perceber... eu não estou.
Não sei se é aconselhável deixarmos de fazer várias coisas de que gostamos e nos dão prazer, para nos aperfeiçoarmos numa específica. E o gozo que as outras nos davam? A especificidade pode pagar-se cara. Arrepender-nos-emos?
Claro que falo por mim.
Não ligues...
Hoje não tinha mesmo mais nada para fazer, nem bem nem mal!
Deu-me pr'aqui...
O que vieres a fazer, fá-lo em consciência. De bem contigo, que com os outros podemos nós bem.

Grande abraço e continuação de boas férias.

zmsantos disse...

Mais uma vez a sabedoria do Salgas a vir ao de cima. E não é da idade, não. Não conheci o Edu quando ele era mais novo, mas acredito que esta sua maneira de estar na vida se tenha revelado desde muito cedo.
Quanto ao facto de teres saído da praia a correr, olha, para mim, qualquer motivo para sair da praia era bom... Agora a sério, dos meus mais recentes amigos, tu és aquele a quem eu noto uma maior inquietação. Um maior inconformismo. Um questionar constante. Uma luta diária em várias frentes para alcançar um objectivo, mesmo que esse objectivo ainda seja algo indefenido no tempo. Mas que digo eu. Tenho quase o dobro da tua idade e descubro com satisfação que continuo a aprender os truques da vida com pessoas de todas as idades. Entre essas pessoas tu ocupas um lugar muito importante, por tudo aquilo que disse, por tudo aquilo que, ainda virá, certamente.

Bons mergulhos, cuida-te!

Rogério Charraz disse...

SalgasVelho said "Não sei se é aconselhável deixarmos de fazer várias coisas de que gostamos e nos dão prazer, para nos aperfeiçoarmos numa específica. E o gozo que as outras nos davam?"

Eu concordo, Salgas, mas não falo de optar entre um dos prazeres. Falo em assumir definitivamente que quero lutar para poder viver das actividades que me dão prazer, sem ter que recorrer a outras que faço por uma questão de sobrevivência. Mas para o assumir eu tenho que estar preparado para dar alguns passos, sem os quais nunca estarei habilitado a misturar trabalho com prazer. Não sei se estou a ser claro o suficiente, mas também se calhar não o quero ser neste momento. É que flar é fácil, e eu tenho mesmo é que me mexer.

Mas nunca deixarei de me dividir por várias áreas, porque faz parte de mim.

Inquietação, sim, Zé, porquê não sei ainda. Mas espero que me leve a lutar pelos meus sonhos, e não me deixe entregar ao conformismo e à preguiça. E creio que aos poucos vou-me dotando dos instrumentos necessários, entre os quais, os amigos, que me têm dado uma força que nunca pensei ter.

Marta Schiappa Pietra disse...

Olá amigo!
É o que dá ser artista!
E não seremos todos de certa forma algo inquietos? eu por mim falo... fiquei logo inquieta ao imaginar-te de férias na praia! Ou será inveja? Bem não sei... o que sei ´
é que temos que ter uma consulta! Claro que estou a brincar! (Quer dizer... tirando a parte do artísta!...) Concordo com o teu amigo Salgas, na importância da dúvida! Acho mesmo que o importante é fazermos mesmo algo... se é mesmo bom ou mais ou menos, tanto faz... se fizemos mal, o importante é a experiência que daí se tirou. Beijinhos e boas férias!