20 de junho de 2008

Adeus, até nunca!

A eliminação de Portugal do Euro2008 provocou-me um misto de sensações.

Por um lado a tristeza de ver a selecção do meu país perder, ser afastada da prova numa altura tão precoce, tendo uma equipa tão promissora. Por muito que discorde das opções, nunca consegui desejar o insucesso de algo que me corre nas veias, que também me pertence. Pelos motivos que enunciarei de seguida, não vibrei com as vitórias, mas não fico feliz com a derrota.

Por outro lado, senti um grande alívio por ter finalmente assistido ao fim do ciclo de Scolari no comando da selecção nacional de futebol. Nunca escondi que não gosto de Scolari, mas não existe nada de pessoal ou de implicativo neste sentimento. Baseia-se em factos obectivos que passo a explicar:

1. Competência

Nunca reconheci no brasileiro as capacidades técnico-tácticas que lhe são imputadas pelos seus muitos apoiantes. Concordo que é muito forte do ponto de vista mental, que trabalha bem os jogadores neste aspecto, mas tem muitas debilidades na forma como monta a equipa, e não estuda convenientemente os adversários. Tomando como exemplo o jogo de ontem, sabendo do poderio da Alemanha no jogo aéreo, tinha que ter encontrado soluções para aumentar a capacidade da equipa neste aspecto (Meira em vez de Petit, Miguel Veloso no lugar de Paulo Ferreira). Dois dos golos alemães acontecem em lances aéreos.

É ainda muito fraco nas substituições que faz durante os jogos. Voltando ao jogo de ontem, como é que se pode entender que uma equipa a perder 3-1, a meia hora do fim, substitua o único ponta-de-lança por um extremo e coloque o seu melhor jogador no meio dos centrais alemães?! Como é possível que Paulo Ferreira (directamente ligado a dois dos três golos alemães) e Simão tenham jogado os noventa minutos?! Como se pode demorar tanto a lançar Nani e nunca chegar a utilizar Quaresma?!

2. Qualidade de Jogo

Foram muito poucos os jogos da selecção que entusiasmaram, com Scolari no comando. Tomando como exemplo o Euro2004, lembro-me de dois jogos bem conseguidos - Rep. Checa e Holanda. O resto? O jogo de abertura com a Grécia foi péssimo, o segundo com a Rússia foi sofrível, com a Espanha levámos três bolas ao poste e passámos boa parte do jogo a defender. No jogo épico com a Inglaterra, estivemos a perder até ao último quarto de hora, e a ganhar no prolongamento não conseguimos segurar a vantagem. A final foi o que se sabe.

O futebol practicado foi quase sempre pouco atractivo, combativo e eficaz. Com a quantidade e a qualidade de recursos ofensivos de que a selecção dispôs nos últimos anos, com os seus jogadores a brilharem nos melhores campeonatos da Europa, não se compreende.

3. Resultados

Toda a gente diz que Scolari conseguiu o que nenhum outro seleccionador foi capaz. Se olharmos para o facto de ter atingido a final de um campeonato da Europa, somos obrigados a concordar. Mas pergunto, que outro seleccionador teve o privilégio de jogar uma fase final em casa, com o apoio maciço do público? Que outro seleccionador teve a facilidade de poder naturalizar jogadores brasileiros? (O que teria sido de outras selecções com Jardel, Mozer, Ricardo, Silas, Cascavel ou Aloísio?) Que seleccionador teve a felicidade de ter na mesma equipa Rui Costa, Luis Figo e Cristiano Ronaldo? Com muito menos armas, Humberto Coelho conduziu a selecção à meia final do Euro2000, practicando um futebol vibrante, antes de ser despedido por politiquices...

4. Critérios

A verdade é esta: nunca foram os melhores que jogaram, mas os que caíram nas boas graças de Scolari. Só assim se compreende que Ricardo seja titular indiscutível há quatro anos, que Pauleta tenha sido titular todo o Euro2004 sem marcar um golo, que Quaresma tenha sido tão pouco utilizado, que Ronaldo tenha usado e abusado do individualismo, que Paulo Ferreira tenha sido o defesa esquerdo do Euro2008.

Foi vergonhosa a forma como jogadores com provas dadas na representação do seu país (Vitor Baía, Rui Costa ou Jorge Costa, por exemplo) foram desrespeitados pelo seleccionador. Actos de teimosia pura, injustificáveis.

5. Atitude

A Scolari tudo foi permitido. Começando pelas expressões bélicas (Mata-mata), que na boca de um treinador ou comentador português seriam recriminadas, passando pela ofensa verbal a jornalistas (o que aconteceria a outro treinador se dissesse a um jornalista "Vai tomar no cu!"?) culminando no triste espectáculo de Alvalade, onde depois de se envolver numa cena de pugilato com um jogador, teve a falta de carácter e a cobardia de negar ter feito o que toda a gente viu. Se bem me lembro, Gilberto Madaíl despediu Carlos Queirós por ter dito, no final de um jogo com a Itália em que fomos eliminado do Mundial, que era preciso "limpar a porcaria" que minava a Federação...

Outros argumentos existem, mas sinceramente, apetece-me virar a página. Estou farto de Scolari, e deste ambiente, tão histérico quanto postiço, que envolveu a participação da Selecção neste campeonato da Europa. Consigo compreender os emigrantes, é duro estar longe de casa, agora não me venham com tretas, um povo que aceita que se ouça 10% de música portuguesa na rádio, que não sabe escrever e falar correctamente a própria língua, que não vota em referendos, que aceita que o Algarve pareça uma província inglesa, não se torna patriota por ter bandeiras na janela e no carro e por gritar os golos da selecção de futebol.

Para vocês, tudo pode ser aceitável desde que se ganhe, mas para mim não. A minha bandeira portuguesa está no coração, vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Exibo-a no meu dia-a-dia, na música que faço e ouço, no civismo com que respeito o espaço público, sempre que exerço a minha cidadania, no respeito com que trato a minha língua e não aceito que qualquer um a represente.

6 comentários:

A CONCORRÊNCIA disse...

Sim é triste o português só conseguir ser patriota, só conseguir mostrar o seu orgulho pela sua pátria através do futebol. Mas já que existe alguma coisa que nos faça demonstrar que ainda temos orgulho em ser portugueses porque não aproveitá-la para o demonstrar, mesmo que tenha sido um brasileiro que se tenha lembrado disso. Seja qual for o treinador da Selecção Nacional penso que os portugueses continuarão a apoia-lá como a têm apoiado até aqui. Quanto a amar tudo o resto que faz parte da nossa cultura, cada português ama o que pode. Gostariamos todos que os portugueses tivessem mais orgulho na sua pátria, na sua lingua, mas enquanto isso não é possível contentemo-nos em ter orgulho no nosso futebol

Rogério Charraz disse...

Minha querida, será que foi mesmo um brasileiro que vos fez prestar atenção à nossa selecção?! Ou foi facto de termos organizado um campeonato da Europa no nosso país? Ou foi ainda o facto de termos obtido bons resultados nos últimos campeonatos e de termos dos melhores jogadores do mundo?

A CONCORRÊNCIA disse...

Quer queiras quer não, foi um brasileiro que nos fez por bandeiras de Portugal nas janelas, nos fez vestir-nos com as cores da Seleccão Nacional, coloriu o nosso Portugal de verde e vermelho, embora isso não invalide que tenhas razão noutros aspectos da personalidade do Senhor Scolari. A verdade é que ele nos ensinou a vibrar e a festejar o sermos portugueses, é pena que seja esta a única coisa que nos faz ter orgulho em o sermos.

zmsantos disse...

"Adeus, até nunca"????

Olha que não sei. O Bicho já declarou que pode voltar em qualquer momento...

Leticia Gabian disse...

Querido amigo Rogério,
Torci por Portugal como se estivesse a assistir a um jogo da seleção brasileira, acredite.
Brasil e Portugal ocupam o mesmo compartimento, aqui dentro do meu coração.
Ambos merecem ser notados aos olhos do mundo, seja pelas tantas qualidades, seja pelo lado menos belo... Afinal, não somos apenas povos que correm atrás de uma bola, somos gente cheia de valor e competência nos mais variados setores e alçadas.

Te deixo um abraço com cheiro de dendê

Rogério Charraz disse...

Mas é claro, Leticia, e aposto que foi uma de muitos brasileiros a torcer por Portugal. Que ninguém confunda as minhas divergências com Scolari, e o facto de não gostar que se naturalizem jogadores por "dá cá aquela palha" com qualquer tipo de animosidade para com o Brasil. Para além de um português orgulhoso, sou um lusófono convicto. Para mim é incompreensível que se ligue tanto à cultura anglo-saxónica em detrimento de outros povos com os quais temos muito mais afinidades.

Beijos e um grande abraço para "Seu Zé".