18 de outubro de 2006

Se fossem os gajos...

Diz a Rititi:

"Se os gajos ficassem grávidos o aborto não estaria penalizado."

E não é que começo a imaginar o quadro que ela descreve aqui, e dou por mim a dar-lhe toda a razão!!!

16 comentários:

Uma vida qualquer disse...

Por muitas características próprias que os homens portugueses tenham, não me parece que sejam assim tão diferentes do resto do mundo. E no resto do mundo, em que o aborto não está penalizado, o processo não foi tão diferente do que está a ser aqui. Parece-me mais uma falsa questão de defesa da despenalização.

Lost in Alentejo disse...

Realmente haveria de ser engraçado ver os homens grávidos, sim senhora, era uma bela ideia, não só porque acabava de vez com a despenalização do aborto , mas acima de tudo com os comentários estupidos que certos homen fazem cada vez que vêm uma mulher grávida.

Barras disse...

Sinceramente, não lhe dou razão nenhuma!!!
As mulheres em portugal, felizmente, não são nenhumas ostracizadas!!!

Rogério Charraz disse...

Sandrina, lá porque no resto do mundo foi igual não significa que tenha sido bem feito. É um dos nossos estigmas "se lá fora fizeram assim...".

Caríssima (estou a deduzir) visitante, quem me dera estar neste momento perdido no Alentejo...

André, não creio que a ideia do texto fosse dar a ideia que as mulheres são ostracizadas, até porque para isso já basta o interior. Uma pergunta simples: achas que se o parlamento fosse composto na sua maioria por mulheres a questão do aborto não estaria já legalizada? A resposta parece óbvia, o que comprova que todo o ser humano tem tendência para prestar mais atenção aos assuntos que lhe dizem directamente respeito. A questão de fundo é que as mulheres continuam a estar muito longe dos centros de decisão e as que lá chegam comportam-se como homens para se manterem por lá. Ignorar isso é assobiar para o lado!

Uma vida qualquer disse...

O que me parece uma falsa questão é querer acreditar que se os homens ficassem "grávidos" as coisas mudariam assim tanto, seja aqui ou não resto do mundo, até porque senão lá se vai a minha fé no ser humano.
Por outro lado, se para ti é claro que uma maioria femenina já teria alterado a situação, para mim não o é, a minha condição de mulher não me faz adepta de remediar a falta de contracepção com a legalização do aborto.

Barras disse...

Rogério, penso que 'Uma vida qualquer' já te deu a resposta.
Conheço muitas mulheres que são contra o aborto, assim como conheço muitos homens que são a favor (e vice versa), portanto, acho que não é por aí...
O aborto é uma questão que mexe com religião, com valores, com ética e até com questões como a premiscuidade ou o hiv.
Tal como foi dito no comentário de 'Uma vida qualquer', haverá certamente quem vá "remediar a falta de contracepção com a legalização do aborto"...e na minha opinião de certeza que muita gente o fará sem sequer sentir o peso da responsabilidade do acto que está a cometer.

Atenção que isto não quer dizer nem de perto nem de longe que eu sou contra a legalização do aborto...pura e simplesmente acho que é uma questão demasiado complexa para ser levada com a leveza q muita gente lhe atribui!

Rogério Charraz disse...

"não me faz adepta de remediar a falta de contracepção com a legalização do aborto."

Meus Caros:

1- Nem toda a gente engravida por não usar contracepção. E quem nunca tiver arriscado no calor do momento que mande a primeita pedra;

2- O que está em discussão não é a liberalização do aborto mas a sua legalização em determinadas situações, o que permitirá que as mulheres com menos posses financeiras, que por sinal estão mais sujeitas à gravidez indesejada por ter menos acesso a informação e a métodos de contracepção, o possam fazer sem colocar a sua vida nas mãos de gente duvidosa, que trabalha em condições duvidosas.
3- Pegando na ideia anterior, creio que este debate não é a favor ou contra o aborto, mas sim se devemos estipular certo tipo de normas que regulem esta práctica, sempre indesejada mas por vezes necessária, e permitir que nos casos previstos seja feito em condições seguras por médicos preparados para o efeito, ou continuar nesta situação em que o acto é ilegal, continua a ser feito na penumbra por quem não tem dinheiro por quem não tem dinheiro para ir a Badajoz.
4- Posso dizê-lo, por experiência própria, que quem recorre ao aborto em circunstância alguma o faz por gosto ou com leveza de espírito. Até porque é uma experiência traumatizante para todas as pessoas envolvidas. Mas também não é solução criminalizar quem em determinado momento não se sente preparado, ou com condições mínimas para poder criar e educar um filho. Com regras, claro, porque a vida humana é um bem demasiado valioso para poder ser tratada com desprezo. Mas este argumento tanto é válido a favor como contra a legalização do aborto.
5- Parece-me que não interpretámos o texto da mesma forma. Em primeiro lugar não creio que o aborto fosse o tema central, mas sim a subvalorização da mulher. O aborto foi apenas o pretexto. Depois, a linguagem é obviamente exagerada e figurada, um pouco como os "Cartoons", utilizando o humor do exagero para passar a ideia.

Uma vida qualquer disse...

Independentemente da questão aborto, até as minhas unhas dos pés estão já cansadas do assunto subvalorização da mulher. Estamos num país europeu e desenvolvido, temos direito a voto, a emprego (que a trabalho sempre tivemos) e a liberdade para decidir sobre as nossas vidas, mas continuamos a culpar os homens, nem sei bem do que - mas suponho que por ter aterrado de cabeça contra uma rocha, depois do pontapé que me infligiram em Marte, devo ter direito a uma vida especial. E pensando bem, e voltando ao assunto que deu origem a esta discussão, perguntou eu: onde estavam todas essas mulheres e homens ávidos de igualdade e que “culpam” a natureza de descriminação, no dia que houve um tal referendo de despenalização? É que talvez, mas só talvez, quando temos oportunidade de efectivamente alterar algo, arranjamos coisas mais interessantes que fazer, estaria bom tempo nesse dia para ir à praia? Lá escolherem a data errada outra vez!
Gosto do teu ponto 1, é a eterna contradição.

Rogério Charraz disse...

Para não correr o risco de voltar a não interpretar bem o que escreves (e, consequentemente, ser incluído no grupo do "mundo que não te entende"), podes concretizar qual a contradição do meu ponto 1?

Ana disse...

Bom, apenas uma pequenina opinião de alguém que, por acaso, é mulher: sou contra a legalização ou descriminalização, ou desculpabilização (que é para não me virem com as questões linguísticas, ridículas, pk a questão é sp a mesma) do aborto, por simples vontade da mulher, até às dez semanas de gravidez.
E simplesmente porque, para mim, a vida humana é o maior dos valores e só em último caso tal valor pode ser posto em causa.
Acontece isso com as figuras da força maior, de legítima defesa e afins, que, só por acaso, tb se aplicam no caso do aborto, o que tem motivado a suspensão de pena às mulheres condenadas, daí que reduzir esta questão às mulheres com problemas económicos, k nunca são condenadas, precisamente porque existem já figuras legais que, não descriminalizando, tornam a sua conduta menos dolosa, me pareça pura demagogia.
Em 2º lugar, sou também profissional, numa profissão que até há bem pouco tempo estava dominada pelos homens (hoje a coisa está quase invertida) e nunca senti que valesse menos aos olhos de alguém ou que me fosse dado menos crédito, ou que ganhasse menos, apenas por ser mulher...
Acho k as mulheres estão a tomar os seus lugares nos centros de poder, talvez mais devagar do k o desejável, mas estão... e se o preço para ser mais rápido é instaurar quotas, então, vamos devagar, k as coisas devem conquistar-se por mérito, nunca por se ter nascido homem ou mulher.
Dixi. :-)

Uma vida qualquer disse...

A contradição está no ponto! começas por dizer que: "Nem toda a gente engravida por não usar contracepção" e seguidamente justificas a falta de contracepção com a generalização da falta de bom senso: "E quem nunca tiver arriscado no calor do momento que mande a primeita pedra". Se nem toda a gente engravida por falta de contracepção e da forma como está enquadrado até parece uma questão menor (que há de facto quem engravide porque quer, felizmente) o risco do calor do momento é referido porquê?
E um aparte, não dia que o mundo me entender, vou ficar muito preocupada, porque duvido que a mudança seja dele.

Rogério Charraz disse...

Sandrina, não me parece que haja contradição. Apenas me referi a duas situações diferentes, e em resposta ao facto de teres dito que a questão do aborto se levantava para "remediar" a falta de contracepção. É óbvio que estou a falar de gravidez acidental, porque o acto consciente e desejado não se enquadra nesta discussão, daí a sua omissão. Ora, se estes dois exemplos é para rebater a tua ideia que isto só acontece a quem não tem juízo e pensa que só acontece aos outros. Também acontece a quem toma todas as precauções e acontece em muitas outras situações que não significam forçosamente desmazelo, irresponsabilidade ou estupidez. E simplificar as coisas dessa forma é querer fazer da vida um permanente acto cerebral, ponderado e racional, esquecendo que nem sempre temos a capacidade de controlar as nossas emoções e de tomar as melhores as nossas decisões. É isso que nos distingue dos Deuses. E aqui responderão vocês: mas podes ter a decisão errada e assumir as suas consequências. Respondo da seguinte forma: hoje não sei se recorreria a um aborto para evitar uma gravidez indesejada. Mas quero ter a possibilidade te tomar essa decisão. "A vida humana é o maior dos valores"? Assino por baixo, mas temos que esclarecer o que entendemos por vida humana. E para mim é mais que um coração a bater e pulmões a respirar. Não quero fazer de Deus e decidir nas primeiras dez semanas quem é que eu acho que vai ser feliz ou não, e quem é que tem ou não boas condições para nascer. Mas quero que uma mulher e um homem possam decidir se querem ou não assumir os papéis de Mãe e de Pai, em determinados momentos da sua vida. Eu sou contra o aborto, mas também sou contra a obrigação de ter um filho porque em determinado momento algo não correu como esperado. E sou, acima de tudo, contra a hipocrisia. Permitir que o aborto continue a ser practicado na clandestinidade é uma hipocrisia. Ter uma lei que condena e uma práctica que ignora é uma hipocrisia. Pensar "quem não quer engravidar que use contracepção" é uma hipocrisia.

Uma vida qualquer disse...

Mesmo sem concordar com muito do que dizes, não vou extender uma discussão que em qualquer caso não levará a lado nenhum. Não entendo a hipocrisia de que falas, igual que não entendo que continuemos (mulheres portuguesas - que outras infelizmente o são) a dar-nos ao papel de vítimas.

Ana disse...

Apenas para encerrar a minha posição sobre este assunto, Charraz, digo-te que, de facto, não nos poderemos entender, porque temos posturas diametralmente opostas: tu vês o aborto como mais uma forma de contracepção e eu só admito a contracepção pré-nidação do óvulo, porque, para mim, a partir do momento em que aquele óvulo fecundado se «cola» ao útero da mãe e começa a desenvolver-se é um ser humano.
Quanto à tua tese, vai ver as estatísticas e diz-me depois quantas gravidezes indesejadas e sujeitas a aborto clandestino resultaram do erro de 0,001% oferecido por uma contracepção bem feita e quantas resultaram de falta ou erro no uso de contracepção.
Aí ficará esclarecido que o que falta realmente é uma consciencialização e educação sexual séria, para evitar gravidezes indesejadas.
Quanto ao «calor do momento», dir-te-ei, simplesmente que o que se faz no calor do momento, assume-se. É por isso que somos adultos e temos responsabilidade.
Se tu beberes e, no calor do momento, resolveres conduzir e matares alguém na estrada, achas que o «calor do momento» e menor consciência por causa da bebida desculpam aquela morte? Não me parece. Mas, provavelmente, se fores a julgamento e se se provar que és primário, que não tens quaisquer antecedentes criminais e que, de facto, não houve dolo na tua conduta, provavelmente só vais ser condenado numa pena suspensa.
Não há hipocrisia aqui, há uma aplicação justa e equitativa das leis, apenas.

Rogério Charraz disse...

Ana, presumo pelo teu raciocínio que também és contra a pílula do dia seguinte. Respeito a opinião mas de facto não a subscrevo.
Matar uma pessoa é um erro. Engravidar nunca é um erro, mas pode acontecer num momento errado. E deve ser permitido a qualquer pessoa assumir ou não essa decisão, obviamente com condicionalismos claros e excepcionais.
Concordo plenamente que é necessário "consciencialização e educação sexual séria, para evitar gravidezes indesejadas." Mas isso não é algo concretizável em pouco tempo e, por si só, não chega. Ainda hoje milhares portugueses não têm educação cívica quanto mais sexual. Se no meu universo de relações pessoais já me deparei com homens que pensavam que bastava usar o preservativo no momento da ejaculação, com mulheres que desconheciam que um antibiótico podia cortar o efeito da pílula, imagino os muitos milhares de pessoas com níveis de educação e informação inferiores! Por isso contínuo a achar que não podemos tratar destas coisas de um modo simplista.

Sandrina, de facto esta discussão não nos leva a lado nenhum. Mas obriga-nos a pensar nas nossas ideias, a fundamentá-las, a questioná-las, a ouvir a dos outros. Podemos ficar no mesmo sítio mas seguramente não ficaremos da mesma forma.
E também não concordo que as mulheres portuguesas, por norma, se façam de vítimas. Creio até que são menos reivindicativas do que deveriam ser. Confundes reclamar direitos com lamechice. E os números falam por si. Nem sequer vou acordar o fantasma das quotas, que não deveriam ser necessárias, porque estas coisas devem acontecer naturalmente. Mas por morrer uma andorinha, não acaba a primavera...

Ana disse...

Não são só os outros que falham em informação... :-)
Uma informaçãozita apenas, a título de achega a uma discussão que se quer esclarecida e em que, mais uma vez, os homens parecem desconhecer uma parte importante do processo de concepção: a nidação é a fase em que o óvulo fecundado se implenta no endométrio (parede uterina), o que acontece, geralmente, 5 a 10 dias depois da fecundação.
Ora a pílula do dia seguinte, precisamente pela altura em que se toma, é anterior à nidação, impedindo que ela tenha lugar, caso tenha existido fecundação do óvulo.
O efeito da pílula do dia seguinte é, assim, idêntico ao do DIU.
Se me perguntares se o simples óvulo fecundado não é já um ser humano, dir-te-ei que aí, sim, a minha posição já vacila, eu, pessoalmente, não seria capaz de usar um DIU ou de tomar a pílula do dia seguinte, mas não me repugna que o façam.
Agora, com dez semanas, é definitivamente um ser humano em crescimento que ali está. As primeiras ecografias dos meus filhos foram feitas às sete semanas e eles já eram seres humanos, bem definidos, com um coração a bater «loud and clear» e, quanto a mim, totalmente merecedores de tutela e protecção contra os outros seres humanos, nem que fossem a mãe ou o pai.