26 de outubro de 2006

Coincidências?

Mais uma noite em que o sono tarda em chegar, sem razão aparente. Se há coisa que detesto é esperar pelo sono, prefiro que ele se anuncie enquanto estou ocupado. Levanto-me, sento-me na cozinha, improviso uma ceia - queijo fresco com doce - e folheio a revista de sempre. Detenho-me na Impressão Digital da pintora. Reconheço os temas: aborto, homossexualidade, arte.

Os programas televisivos da manhã fazem companhia, mas são alienantes, dizem-se muitas tolices. As pessoas interessantes são obrigadas a falar depressa, mas dá-se tempo de antena a gente tonta, sem nada na cabeça.

(...)

É uma mulher de esquerda?
As minhas preocupações são de esquerda. Sou contra a criminalização de mulheres por causa do aborto. Sei de católicas que abortam e votam contra. São hipócritas. Mas as mulheres que conheço e abortaram sofreram com isso toda a vida. É vergonhoso haver mães adolescentes. Falta educação sexual. Os pais nunca se aperceberam das necessidades sexuais dos miúdos, que agora começam cedo. Na TV, já podem ver tudo.

Como olha para a homossexualidade?
Naturalmente. Tive um tio-avô paterno homossexual. Sofreu muito e num meio difícil. Tal como ele, outros só não sofreram mais porque tinham dinheiro, defesas. Os pobres sofrem sempre mais. Até nisso. Vivem escondidos. Tenho amigos homossexuais encantadores, gente de grande dádiva. Há uma dimensão feminina nos homossexuais que se aproxima da minha.

(...)

Tem medo da morte?
Tenho! Agora tenho. Não me apetece morrer. Se morrer fico chateada. Em miúda, gostava de ver nascer e de olhar a cara dos mortos. Hoje não consigo. A última cara que vi foi a do meu irmão Zeca, que morreu de cancro. Olhei para a cara dele e não era o meu irmão, era outra coisa.

(...)

Entre a ética e a estética nunca duvidou?
Nunca. Sofro muito com a minha pintura. Ás vezes sinto-me injustiçada, incompreendida. Mas passo à frente através do meu trabalho. Quando estou em baixo, vou ver arte e penso como a vida de outros artistas nunca foi fácil. A arte é uma grande insatisfação. Quando começo um quadro entro numa luta comigo própria, sou exigente. Não posso mentir, enganar-me. Mas a sociedade não suporta o enriquecimento dos artistas. Anda toda a gente a negociar os nossos quadros, mas quando o artista também ganha com o seu trabalho é logo apelidado de “comercial”. Não pensam sequer na verdade com que o artista pintou
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Graça Morais, 58 anos, "Visão" de 19-10-2006

Coincidências previstas na carta astral dos Deuses!

3 comentários:

Uma vida qualquer disse...

Desculpa a curiosidade, mas qual é a coincidência? é que não percebi, se é que era para perceber, claro.

Rogério Charraz disse...

Homossexualidade (texto do professor), Aborto (longos comentários), Arte (texto do Paul Auster).... nem parece teu...sempre tão dada a subtilezas...

Uma vida qualquer disse...

Subestimas a minha capacidade de parecer um elefante a saltitar de nenúfar em nenúfar.
Bons dias!