20 de setembro de 2006

Broken Music

Tendo passado a maior parte da minha vida a compor canções, a condensar as minhas ideias e emoções em pequenos versos em rima e a pô-los em música, nunca tinha pensado em escrever um livro. Mas, quando cheguei aos cinquenta anos, à idade da reflexão, senti-me atraído, pela primeira vez, a escrever longas passagens, que eram para mim tão estimulantes e intrigantes como qualquer canção que tivesse composto.

E foi assim que “Broken Music” começou a ganhar forma. É um livro sobre a primeira parte da minha vida, desde a infância, passando pela adolescência, até aos primórdios do meu sucesso com os Police. É uma história que poucas pessoas conhecem.

Não estava interessado em escrever uma autobiografia tradicional, contando tudo o que me tinha acontecido. Em vez disso, senti-me tentado a explorar determinados momentos específicos, certas pessoas e relações e alguns acontecimentos que continuam a parecer-me extremamente fortes, quando tento compreender a criança que fui e o homem que sou.

Sting, introdução ao livro “Broken Music” – As minhas Memórias.

Soube pelo Perdigão que o Zé Manel andava a ler a biografia do Sting, músico que entrou na minha vida através de um vinil oferecido pelo meu tio (que ainda hoje guardo com muito carinho), e que desde então figura no topo das minhas preferências. Já ouvira falar desta edição mas o momento não estava propício a gastar dinheiro, pelo que, em jeito de comentário, fiz-me de crava e lembrei-lhe que os livros na estante se fartam de ganhar pó.

Pelo pouco que conhecia do Zé pressentia que a ideia não ia ser mal recebida, pelo que não me causou grande espanto que a resposta fosse tão positiva quanto célere. Ficámos algum tempo sem nos vermos, pelo que o Zé fez questão de me lembrar, mais que uma vez, que afinal o livro andava a ganhar pó no carro.

Até que uma dessas noites de Ribeira ou de Taverna, já não consigo precisar, lá apareceu o Zé com a Fátima por um braço e o livro debaixo do outro. Agradeci-lhe a amabilidade de não se ter esquecido da nossa conversa e guardei o livro na mala, para mais tarde recordar.
Lembro-me que se passaram duas ou três semanas daquelas em que o tempo se torna mais rápido que a sua sombra, não restando outra solução às memórias do Sting que experimentar o pó da mala dos cabos. Até que um dia lá me lembro de remexer na dita mala e dar de caras com o dito livro. Quando folheio a capa encontro no seu verso algumas palavras que não constavam da história do brilhante músico britânico:

Para o Rogério Charraz, com amizade,
Zé Manel – Fev. 2006

Não tive coragem para mais que um SMS a tentar explicar que o prolongado silêncio não foi indiferente nem propositado. Nunca me consegui expressar apropriadamente quando sou confrontado com gestos que me comovem.

“Broken Music” foi a minha leitura de férias. Consegue ser surpreendente, emocionante e muito curioso para quem um dia também sonhou ser um músico famoso. Aqui fica um aperitivo:

É uma noite de Inverno no Rio de Janeiro, em 1987. (…) Graças a uma série de telefonemas discretos conseguimos um convite para uma cerimónia religiosa numa igreja algures nas florestas que circundam a cidade. Estamos a ser conduzidos por um homem e uma mulher, que nos dizem apenas que a igreja fica a cerca de hora e meia de Copacabana e que não precisamos de nos preocupar. A igreja, embora de nome seja cristã, pertence a um ecléctico grupo religioso que utiliza como principal sacramento uma antiga mezinha extraída de uma planta denominada ayahuasca, que dizem induzir visões extraordinárias e profundas.

(…)

Em Outubro, Stewart, Andy e eu tocamos em França (…). Em Paris, tocamos no Nashville Club, uma sala confortável em St. Germain, e ficamos instalados numa pensão barata por trás da Gare de St. Lazare. A entrada da pensão fica numa rua estreita e imunda, perpendicular à avenida principal. (…) A rua é a base de ataque de umas vinte mulheres, encostadas às soleiras das portas, a fumarem cigarro atrás de cigarro, de gabardinas abertas, mini-saias e sapatos de salto alto, que observam a rua de olhos cabisbaixos, como espiões num filme de má qualidade. (…)
No sujo átrio do hotel há um cartaz da Comédie Française, tristemente pendurado na parede atrás da recepção. Anuncia Cyrano de Bergerac, uma peça de Edmund Rostand. Demoro algum tempo a descortinar a sua alegria no meio das suas cores já desbotadas. É o retrato ridículo de um homem com um nariz enorme e um chapéu com pluma. É um palhaço trágico cujo infortúnio é a sua honra. É um homem que tem um segredo; um louco eloquente e estonteante que depois de ter feito a corte a uma mulher bela em nome de um amigo não consegue revelar-se como o verdadeiro autor, quando o seu amigo morre. É um homem que ama sem ser amado, e a mulher que ama, mas não consegue alcançar, chama-se Roxanne.
Nessa noite, vou para o quarto compor uma música sobre uma rapariga. Chamar-lhe-ei Roxanne. Retirá-la-ei da rua onde fica o hotel sem lhe pagar e envolvê-la-ei no romance e na tristeza da peça de Rostand. A sua criação irá mudar a minha vida
.

5 comentários:

Uma vida qualquer disse...

E dizes que está a ganhar pó onde?

Rogério Charraz disse...

Isso é uma candidatura a empréstimo?

Uma vida qualquer disse...

Desde que não tenha impressos a preencher, certamente.

Rogério Charraz disse...

Com todo o gosto...

zmsantos disse...

Mais difícil, aínda:

1 livro debaixo do braço;
A Fátima debaixo do outro braço;
Os jogos do Benfica, de pé pra pé.

E na cabeça 3 ou 4 cantigas saídas da tua guitarra, da tua amizade...

Um abraço